Precisa ser bonito

Quando decidi escrever esses textos, quase 2 meses atrás, listei uma série de tópicos sobre os quais eu gostaria de falar. Estamos na 7ª semana e posso dizer que até agora não segui nenhum deles. A questão é que, à medida que o tempo passa e as coisas acontecem, nossa maneira de ver o mundo vai se moldando e certos temas parecem pulsar mais fortes e mais pertinentes do que outros. A única coisa que não mudou (e provavelmente não mudará) é que toda newsletter é fresca: ela foi escrita, se não no mesmo dia, no dia anterior à segunda em que ela é enviada. Isso significa que o conteúdo que vocês lêem agora é o que é pertinente para mim nesse exato momento presente, e não na semana passada, ou no mês passado.

Precisei fazer essa pequena introdução para que o assunto de hoje fizesse sentido. Hoje eu queria falar sobre beleza, ou o porquê de a beleza importar tanto, especialmente agora. Para inserir essa newsletter no espaço-tempo, estamos falando numa segunda-feira pós protestos contra o governo em todo o Brasil, e estamos falando de Recife, em que esses mesmos protestos foram brutalmente reprimidos por ações da Polícia Militar. Entre os feridos, um homem de 51 anos, que perdeu o globo ocular esquerdo por um tiro de bala de borracha.

Não sei como é para vocês, mas diante desse contexto e com quase meio milhão de mortos entrando para a conta da COVID no Brasil, tenho questionado cada vez mais aquilo que crio, que faço e que coloco no mundo. Não são raros os momentos em que acho tudo efêmero e banal, mas sempre volto para o mesmo lugar: se não fossem as coisas belas, como estaríamos passando por este momento?

Dedicar-se à criação do que é belo, hoje, requer coragem e resiliência, afinal de contas nada parece muito bonito lá fora. Como disse o designer Allan Moore no seu Why Beauty is Key to Everything, criar algo belo é manter-se otimista e acreditar que a vida vale a pena no final das contas. Inclusive, recomendo bastante esse livro (disponível apenas em inglês — você pode comprar clicando aqui), que é uma coletânea de textos que nos faz observar, questionar e repensar tudo aquilo que produzimos e consumimos. De maneira bem leve e inspiradora, o livro traz depoimentos e exemplos de empresas como Apple e Pixar e até do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

A gente cria para impactar a vida do outro, para inspirar, para trazer leveza. E precisa ser bonito, precisa vir de dentro, precisa transbordar. Calma, não estamos falando de alienação: estamos falando daquilo que é bonito aos nossos olhos, sem deixar de escutar aquilo que acontece fora de nós; é vendo, ouvindo, sentindo e até tocando que somos capazes de criar algo verdadeiramente valioso e consciente. E se os dias estiverem com um gosto amargo, que a gente possa trazer um pouco de doçura com aquilo que colocamos no mundo.

E é nesta sinestesia que desejo uma boa segunda para vocês, agora que nossa love letter é enviada mais cedo, às 11h. Nas fotos de hoje, o mamoeiro da casa da minha mãe após a chuva como prova de que há beleza em todas as coisas, até nas menores, como as gotas que repousam sobre folhas. Ela está lá sim, basta estarmos atentos e curiosos para observar.

Que vocês continuem corajosos e esperançosos, criando. Até semana que vem!

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Escrevo sobre criatividade, direção de arte, marketing digital e o que mais vier à mente — e ao coração

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Sthefany Passos

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